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As questões que estão na ordem do dia em relação às artes tradicionais

Na conversa em 3 tempos do dia 18 de Outubro foram colocadas as grandes questões que estão na ordem do dia em relação às artes tradicionais.

Os convidados Conceição Amaral da Fundação Ricardo Espírito Santo Silva, João Amaro da Tertúlia Algarvia, a artesã Otília Cardeira, a investigadora Rosa Pomar, os arquitetos João Amaral e Manuela Tamborino e Carlos Baía, o Delegado Regional do IEFP, manifestaram a sua opinião e partilharam a sua experiência perante uma roda bem composta por artesãos, interessados e curiosos.

Conceição Amaral acredita que o Tasa é um projecto “que pela forma como está estruturado é estruturante para a região”. Dada a experiência que tem, a Diretora do Museu-escola das artes decorativas portuguesas, considera que peças de artesanato como as do TASA passam para um “estatuto artístico” e devem internacionalizar-se, indo ao encontro do mercado que as aprecia. As peças que o museu-escola produz já atingiram o estatuto de “manufatura de luxo”, são produzidas em “pequena quantidade com grande qualidade” e vendidas em Paris, Londres, no Dubai e Nova Iorque, onde as pessoas sabem que estão a comprar “uma raridade”.

João Escaleira Amaral e Manuela Tamborino, dois jovens arquitetos que fundaram o estúdio AMATAM, explicaram porque escolheram peças do TASA para decorar o restaurante de um fitness club chamado Kalorias. Tendo passado alguns anos no estrangeiro, perceberam que a arquitetura está muito “globalizada” e sentiram necessidade de “projetar imagens associadas a marcas que transmitam a nossa identidade”. Dizem que as pessoas “adoram” ver as peças nestes locais públicos “porque o artesanato mexe com a nossa memória, quando as olhamos não ficamos apáticos”.

Da mesma maneira, João Amaro, empresário, esclareceu que a Tertúlia Algarvia sempre quis ser um espaço “que mostrasse o que o Algarve tem de melhor e que nos enchesse de orgulho mostrar”, daí ter recorrido ao artesanato para os usos e decoração do local. A vantagem, disse, é que “cada peça tem uma história para contar e isso enriquece a experiência de quem vai ao espaço”.

Porém, João Amaro reconhece a dificuldade em sustentabilizar projectos como o TASA e é por isso que considera que “é preciso haver investimento público até entrarem nesse ponto”. Aludiu à imagem das rotundas e estradas para denotar que em Portugal “há muita dificuldade em fazer investimentos públicos imateriais continuados”.

O licenciamento e estrangulamento da fiscalidade foram as dificuldades mais apontadas pelos artesãos e convidados. Rosa Pomar, a investigadora e artesã dos têxteis, disse mesmo que os produtos artesanais “mais interessantes” que tem visto “são de pessoas que não estão legalizadas”. Falou de um “equilíbrio difícil” que é manter as produções artesanais como são e que essa atividade esteja “enquadrada”. Contou casos que acompanhou no seu contacto com experiências nacionais de produção artesanal e sublinhou que “há muitas questões legais que estrangulam a atividade”. Uma solução, propôs, é a criação de “estruturas que façam a mediação e que resolvam a embrulhada fiscal”.

O estrangulamento legal explica em parte o “desaparecimento” das artes e ofícios, como atestaram muitos dos participantes na conversa, mas outro aspeto que tem pesado bastante é a falta de jovens que aprendam as artes tradicionais. A este propósito, Rosa Pomar lançou aquela que considera ser a pergunta mais importante: como cativar os jovens para ir ao encontro dos mestres?

Otília Cardeira, artesã do linho, referiu o seu exemplo. Contou que procurava há anos quem se quisesse formar na sua arte e que agora, graças ao efeito perverso da crise e às medidas disponibilizadas pelo IEFP, conseguiu integrar uma jovem da zona de Cachopo através de um estágio para estar na sua oficina diariamente a aprender a tecer o linho. Recorda que na sua mocidade havia em Cachopo 70 tecedeiras e que agora resta ela e mais, acrescenta com esperança e clara satisfação, “a Elsa, a estagiária”.

Conceição Amaral apelou a que se salvaguarde “a transmissão dos saberes” e diz mesmo que o facto de os ofícios estarem a desaparecer “é um problema da nossa História e da nossa identidade cultural”. Relatou a experiência que o Ministério da Cultura francês implementou há alguns anos.  Quando em França se aperceberam que as artes e ofícios estavam a desaparecer identificaram e mapearam os ofícios, os artesãos e os mestres. A esses mestres era pago um salário para durante dois anos ensinar um aluno e quem o fizesse com sucesso passava à categoria de “Maitres d’Art”. Atualmente existe uma associação com 107 mestres de arte a transmitir os seus conhecimentos a alunos para que assim sejam perpetuados.

O delegado regional do IEFP declarou que existe uma vasta experiência do instituto na formação de artesãos, mas que no Algarve só agora começaram, com uma formação de cerâmica criativa que pretende “replicar para outros pontos do Algarve”.

As formações de curta duração, os workshops e a integração dos ofícios nas atividades escolares são, na opinião de Rosa Pomar, muito importantes para “educar para a arte popular”. A sua experiência diz-lhe que as pessoas que aprendem num desses cursos ou workshops “ganham sensibilidade para praticar outros consumos”.

No dia 26 de Outubro, voltamos à conversa sobre as artes tradicionais, desta vez para perspetivar o seu futuro. É no Cecal/Casa da Cultura no Parque Municipal de Loulé, às 17h. Apareçam!

Projeto TASA – Técnicas Ancestrais Soluções Atuais
  • PROMOTOR:
    CCDR
  • GESTÃO DO PROJETO:
    ProActive Tur
  • APOIOS:
    Algarve 21